16/06/2020 às 13h11min - Atualizada em 17/06/2020 às 12h36min

A vida foi afetada!

A vida foi afetada e o afeto nunca se fez tão necessário!! Psicanalistas, psiquiatras, psicólogos e educadores conversam e trocam saberes junto às famílias de crianças e jovens que estão há mais de 70 dias com aulas remotas. Garantir a saúde mental de toda a comunidade escolar – pais, alunos e professores - é um ofício que exige a participação de todos.  As dúvidas, medos e questionamentos que surgem a cada dia em meio ao pandemônio no qual todo brasileiro está passando são parcialmente respondidas por profissionais das áreas da ciência, saúde e educação. Para os especialistas, é importante cuidar agora, para que após a pandemia da covid-19 o brasileiro não seja surpreendido pela pandemia da depressão, da ansiedade ou do estresse.

Flavio Cidade é orientador educacional do 3º, 4º e 5º ano do Colégio Equipe, em São Paulo. Ele conta que sentiu a necessidade de estar mais perto dos alunos, além das aulas remotas, a partir de relatos dos pais dos alunos. Muitos diziam sentir os filhos angustiados.
Segundo Cidade, foi a partir do contato com uma mãe em que ela contou sobre como estava seu filho, que o professor sentiu que precisava conversar com esse aluno. “O professor ficou uma hora conversando com essa criança, e percebeu que mesmo de forma remota, é importante proporcionar um espaço para as crianças se abrirem e contarem o que estão passando”, conta.

“Não, você não está entendendo! Eu estou viciado em série”. Essa foi a colocação de um aluno de 3º ano em uma live que o Colégio Equipe organizou entre alunos do fundamental 1 junto aos educadores da escola e as especialistas Julieta Juralinsky (psicanalista) e a médica pediatra Ligia Bruni Queiroz.

Juralinsky explicou para essa criança que assistir séries durante a quarentena não é ruim, pois distrai a cabeça e estimula a imaginação. Mas o vício não é bom! Como tudo em excesso. Como essa criança, muitas outras expuseram seus pensamentos e questionamentos, que foram respondidos pelas especialistas nos aspectos relacionados às suas áreas e respeitando a idade e ludicidade de cada um dos alunos.

“Tivemos de inserir as aulas de Orientação Educacional na grade das aulas remotas”, conta Ana Claudia Esteves, Orientadora Pedagógica da Escola Stance Dual, em São Paulo, após receber uma demanda de aluno do 9º ano, solicitando conversar. Além das aulas de Orientação Educacional com todos os alunos, a escola também cuida para que os pais dos seus alunos sejam atendidos em seus questionamentos. A Stance organizou uma live com a psicopedagoga Fatima Gola e os pais dos alunos, para conversarem sobre tudo o que está acontecendo levando em consideração a faixa etária dos estudantes.

Na live, Fátima Gola explicou que todas as pessoas tiveram de se adaptar à nova realidade e depois que essa vida foi acomodada, surgiu o tédio, a mesmice e uma série de restrições em nome da proteção e preservação da saúde. “Ainda não sabemos a reverberação que a pandemia vai causar nas crianças a partir de 8 anos de idade. Quando entram na adolescência, começam os pensamentos extremados e os medos”, explica a especialista. Segundo ela, algumas crianças e jovens verbalizam. Outros não, e esses que têm dificuldade em se abrir as famílias devem prestar atenção e contar para a escola qualquer alteração de comportamento. E a escola, por sua vez, também deve relatar às famílias como seus filhos estão se comportando durante as aulas e contatos remotos.

No Centro Educacional Pioneiro, zona sul de SP, uma aluna do 8º ano escreveu uma carta ao colégio pedindo que cuidassem da saúde mental dos alunos e dos professores. “Achei muito bacana a atitude dessa aluna, e sua preocupação com todos. O 6º ano, por exemplo, nos pediu mais aulas de ética e convivência, porque sentiam necessidade de conversar mais sobre tudo o que está acontecendo”, conta o coordenador da área de humanidades, Mario Fioranelli Neto
Para responder aos questionamentos e angústias dos pais, o colégio convidou o psicólogo Alexandre Coimbra para uma live.  O Pioneiro faz questão em ressaltar que os cuidados com a saúde vão além dos alunos e pais. “Nossos professores têm de estar bem de saúde física e emocional, para poderem cuidar dos seus alunos. Fazemos reuniões frequentes com toda a equipe docente, e reforçamos a importância do bem estar de cada um”, conta Mario.
O Instituto Singularidades, faculdade que forma professores em Pedagogia, Letras e Matemática, em São Paulo, encontrou uma maneira eficiente para garantir que todos os alunos da graduação sejam olhados com afeto por cada um dos professores, durante as aulas remotas.

“Nossos alunos são de realidades diferentes. Temos alunos ricos, pobres, que moram em regiões mais abastadas e que moram em regiões de grande vulnerabilidade. E todos eles têm de ser atendidos respeitando sua singularidade”, conta Cristina Nogueira, coordenadora pedagógica do curso de Pedagogia.

Segundo Cristina, um telefonema para o aluno já faz toda a diferença. “Temos uma equipe especializada em apoio emocional. Se notam que determinado aluno está ausente na aula, ou seu vídeo não está visível ou outro problema qualquer, entram em contato para conhecer o motivo e poder ajudá-lo”, diz.

Para que esse trabalho de atendimento personalizado seja efetivo, o Singularidades criou uma planilha com o histórico de atendimento dos últimos dois meses de cada um dos alunos, e compartilha com todos os professores. “Está sendo muito bom. Dessa forma, cada professor, antes de entrar em aula, vê a planilha e fica a par da história de cada estudante, possibilitando a intervenção quando necessário”, diz.
 
Notícias Relacionadas »
Comentários »