10/05/2020 às 16h40min - Atualizada em 10/05/2020 às 16h40min

O abraço que tivemos. O abraço que teremos

Carlos Vidal
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Mohamed Hassan/Pixabay

Nada custa tanto como o desapego de um abraço apertado. No fim de um abraço não fica nada. Voltamos ao que tínhamos antes, que era coisa nenhuma. Uma patavina misturada com a necessidade e a vontade de sentir. Tenho cá para mim que o nosso organismo apenas subsiste entre dois abraços e vive quando vê juntos dois corpos, numa dança eternizada por aquele toque que transmite a emoção. Entre dois abraços a vida só é possível através do sonho que permite esperar pelo seguinte. O sonho é difícil de esquecer. Impõe a sua presença e deturpa a realidade. Quase como se perdêssemos o controlo do corpo que mandamos e misturássemos a vida com a fantasia. Às vezes tornam-se vívidos. A vida e o sono.

O corpo não pode ser traído, não lhe conseguimos sair a ganhar. Manifesta-se e toma as rédeas da coisa. O coração tenta sair do peito e só é travado por uma anatomia que se faz sentir presente. A respiração aumenta e mantemos a falta de ar. O corpo transpira e a cara fica ruborizada, impedindo-me de mentir. Impedindo-me de esconder. No abraço somos nós, porque não podemos ser outra coisa. Somos genuínos, porque não conseguimos ser outra coisa. Somos nós, porque temos de o ser.
O abraço é onde habita o amor. E onde se guardam todos os amores. Circundar os braços noutra pessoa é trazer o coração à rua e deixá-lo solto, sem repressões sociais ou o travão da razão. O abraço não tem saudades. Porque é a saudade. Os olhos fecham-se e, sem nos apercebermos, forçamos os corpos a unirem-se como se fossem apenas um. Muitas vezes até já eram e não sabiam. O momento é tão vivido que parece que nos ausentamos dali e observamos tudo de longe, com a mesma intensidade da falta que lhe sentíamos. E aí sim, podemos descansar. Repousamos dois corpos cansados de uma ausência que parecia eterna. Por isso é que os bons abraços são intensos. Reafirmam que estamos vivos e que não estamos sós.

O melhor é sempre aquele que ainda não demos, tornando-nos ingratos e algo egoístas. Mas nenhum amor subsiste se não for o expoente máximo da presunção.

O confinamento tirou-nos a partilha. Tirou-nos a proximidade. Tirou-nos o toque. Levou-nos o abraço. Deixou-nos a saudade em dividendos. Os corpos estão cansados da solidão e da distância. Uns já partiram, deixando a nostalgia e a despedida em crédito. Desta vez, o coração também tenta sair do peito, a respiração também aumenta e a falta de ar mantém-se. O corpo transpira, a cara fica ruborizada e, caramba, não conseguimos mentir. Temos saudades. Tantas.

Não sei se o abraço voltará. Se regressar, virá magoado e nunca mais será o mesmo. E eu tinha tantos para dar.


Um artigo do médico e humorista Carlos Vidal.
 

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